23 março, 2016

Novo capítulo



Caiu a última gota de água que deu início a um longo pesadelo.
Hoje, já acordada, relembro tudo o que não fiz para evitar que o "copo" ficasse tão cheio. Hoje, sem o homem que amo, apercebo-me de tudo o que sou e do que fui. Até agora vi os dias passar, pensei em todos os problemas que eu podia ter evitado, pensei em todas as vezes em que a culpa foi minha. Mas houve sempre algo mais, houve sempre amor. Eu não amei aquele homem de forma a possuir a vida dele para o meu controlo.
Quantas foram as vezes que eu insistia para que ele marcasse outras atividades além de mim e do trabalho?
Quantas foram as vezes que me zanguei para que ele lutasse pelos seus objetivos? Não se acomodasse à vida?
Que aproveitasse cada segundo do seu tempo e tentasse fazer tudo o que sonhava?
Porquê?
Porque eu nunca quis ser tudo para ele, eu estava feliz se fosse parte da vida dele, apenas queria ser parte, mais nada. Apenas quis ocupar o cantinho do amor, no coração dele. A secção de relacionamentos, no compartimento da vida dele.
Fiz muitos planos onde ele sempre estava presente. Eu também tenho inúmeros sonhos e ambições. E, nunca, ao longo dos 4 anos, eu pensei abdicar deles. Mas nunca coloquei em questão o espaço que ele ocupava na minha vida. Nunca o coloquei como um obstáculo.
Hoje percebo. Hoje vejo o que me tornei.
Um obstáculo. Na vida dele!
Felizmente ele foi alcançando os seus sonhos, felizmente!
Sim, não há nada que eu mais me orgulhe do que ter acompanhado todos os seus pequenos passos que o tornam hoje num homem mais realizado e feliz. Mas eu… bem, eu fui-me tornando num obstáculo para que ele alcançasse todos os seus sonhos. Hoje, eu seria uma pedra no seu caminho. Hoje eu seria menos importante que qualquer um dos pesos que ele levanta no ginásio. Hoje, o tempo que eu lhe ocuparia na vida poderiam tornar um 20 num teste num 19,85. E isso é crucial, é decisivo! Pode interferir no seu futuro de forma irreversível. Eu não quero ser esse obstáculo. Nunca quis e nunca vou querer.
Eu amei este homem quando ele não era fisicamente atraente. Eu amei este homem quando ele usava óculos, adorava McDonald’s e detestava ir às aulas. Amei-o quando ele decidiu ir para a tropa, amei-o quando ele começou a praticar exercício e amei-o quando ele se tornou fisicamente atraente. Também o amei quando ele não tinha dinheiro próprio, quando dependia dos pais e contava os cêntimos para chegar ao fim do mês. Amei-o quando ele tinha carro com 300 anos e continuei a amar quando ele ficou sem carro. Amei-o quando vivia sem ele e continuei a amar quando passei a viver com ele. Nunca houve nenhum outro motivo para eu estar com ele além do amor.
Hoje… Hoje ele tem um excelente salário, um carro novo, um físico invejável e uma carreira promissora! Um homem exemplar, simplesmente exemplar. Mas algo estava a condicionar o seu rápido sucesso. Amar-me estava a consumir-lhe demasiado tempo, demasiado espaço no seu cérebro e no seu coração. Hoje… Hoje ele vive para todos os seus sucessos e ambições.
Eu já não faço parte de todas as metas que ele pretende alcançar. Não sou mais um elemento a ponderar nas suas decisões nem um pensamento que lhe disturbem a concentração.
Valor!
Sim, porque eu não tenho o mesmo valor na vida dele que pensei que tinha. Não! Eu não estou a dizer que não tenho valor… Tenho muito valor!
Orgulho-me dos 4 anos que lhe dediquei todo o meu amor, carinho, força e dedicação. Todas as vezes que lhe disse “vai, luta, não te acomodes!”.
Só não tive esse valor na vida dele. Não o marquei como todos esses objetivos alcançados marcaram. Fui-me tornando num elemento cada vez menos relevante. Entristece-me, claro! Mas hoje percebo algo muito importante!
Valor!
O valor que eu tive ao longo do tempo que percorremos juntos. O valor que ele teve e o peso que ele teve em todos os momentos que fui eu a alcançar os meus objetivos.
Poderia falar, agora, da minha parte, mas não o vou fazer por um simples motivo - Eu nunca o quis ausente. Nunca coloquei na balança abdicar de alguém…. Por algo….
Mas hoje sei o valor que tenho. Não apenas por me aperceber de todos os meus contributos para a felicidade dele… Mas porque hoje, sem ele, consigo obter força para olhar em frente quando pensava que a força era ele. Hoje continuo com sucesso profissional, quando pensava que o único motivo para o obter era ficar ao lado dele, junto dele num futuro onde existissem criaturas geradas por ambos. Hoje continuo a acordar com um sorriso na cara e a partilhar amor com outras pessoas, fazendo a vida de outras pessoas felizes, com pequenos gestos. Hoje ainda tenho valor… Simplesmente isso.
Amei muito aquele homem, dediquei todo o meu sentimento ao sonho de uma vida a dois com ele. Não me arrependo! Claro que não! Fui muito feliz ao lado dele. Hoje decido viver a minha vida da forma mais marcante possível, continuar a fazer a diferença em pequenos gestos e dar a mão a quem precisar. Fazer de cada dia, um dia melhor, para mim ou para alguém. E por tudo isto sei que, por muito mal que tudo tenha parecido nos últimos tempos, por muito negligentes que ambos tenhamos sido, foram 4 anos com muito amor. E isso deixa-me muito feliz.

10 março, 2016

"Mulher Militar"

Há dois anos que estou ausente deste meu "desabafo" virtual.
Dois anos... Ora, seriam necessários outros tantos para estar aqui a atualizar todos os acontecimentos marcantes. E houve esses momentos, se houve!

Mas, numa publicação que fiz para um jornal na escola a que pertenci consigo resumir muito rapidamente o que tenho andado a fazer.



O meu nome é Mariana Vieira, sou natural de Portimão mas tenho as minhas raízes no Minho. Cresci no Norte e lá estudei. Frequentei o ensino básico e secundário na Escola EB 2,3/S Vieira de Araújo, e que tempos foram esses!
Mas todos temos decisões importantes para tomar, mesmo quando somos jovens.
Quando? Quando temos que decidir o que fazer terminado o 12º ano, por exemplo! Ora, decisão que pode ditar uma vida, uma carreira. Várias até, quem sabe…
Não é uma decisão importante?!
Bem me lembro do frenesim da feira de profissões, na tenda cá fora montada, em frente ao edifício polivalente! Uns panfletos aqui, umas batas ali e aquelas fardas? Fardas verdes, camuflados? Tropa!
Havia militares na minha escola! UAU! Mas o que é que isso tem a ver com o meu futuro? «Podes seguir uma carreira militar, ser oficial, escolher um curso equivalente aos cursos das universidades civis, mas ser militar ao mesmo tempo.» Diziam eles, prontos a esclarecer dúvidas.
A sério? Não sabia nada daquilo e lá preenchi a candidatura, pois achei mesmo aliciante! Uma vida inteira a ser militar!
“Afinal não existe só a tropa dos 6 anos, ando mesmo desatualizada”, pensava eu.
Por motivos que não releva agora enunciar, não entreguei aquela candidatura e segui eu o meu caminho das Biologias para a Universidade do Minho.
Ó! E que curso aquele de Biologia Aplicada. Quanto mais sabia mais queria aprender. Adorava cada dia de laboratório, mas… e aquela candidatura? Sim, será que eu ainda ia a tempo?
Algo me dizia que era para lá que eu devia ir. Porque não? Mas, e os dois anos de universidade que se avizinhavam terminar? E o tempo investido? Tudo o que aprendi? Era a delegada de curso, as notas não alertavam para o insucesso, por isso, nada me devia preocupar.
“Esquece a candidatura!” Pensava eu, enquanto me afincava no estudo das células e contas das físicas e químicas.
Entretanto, dois jovens apaixonam-se. O rapaz do meu curso e eu! Pronto, mais um motivo para continuar neste rumo que tão bem se apresentava.
O rapaz foi para a tropa! “Não é sinal nenhum Mariana, estás a ser paranoica!” Continuava a minha mente a alertar-me.
-Se calhar também me vou candidatar à PSP, parece-me ter cursos interessantes.
Disse-lhe eu, na tentativa de procurar algo semelhante que fosse mais fácil de receber a aceitação. Pois, não é fácil ter um namorado que me adora enquanto a rapariga da vida dele e de repente dizer-lhe que quero ser… militar! PSP pareceu-me ser uma boa opção!
-Tens a certeza que é isso que queres? Responde-me ele.


Não passei nos testes físicos! Maldita prova slalom, que me deixou sozinha em Lisboa sem ver nada na frente. De repente, era uma parva por ter tentado!
«Como é que alguém como eu poderia conseguir? Era impossível, já devias estar preparada!»


«As candidaturas para a Academia Militar estão abertas! Tenta! Não custa nada, e já sabes o sabor da perda. Talvez seja mais um sinal!» Dizia-me aquele pensamento ainda a recuperar do sentimento de falha, por ter saído pela porta dos eliminados.
Mas não seria fácil anunciar a nova decisão aos homens da minha vida. Aliás, o papá ia detestar, e até reprovar! Era má ideia de certeza!


«Uau! As instalações da academia militar são mesmo acolhedoras! Gostei muito da Senhora Cadete que nos recebeu. Espero que as provas amanhã corram bem, estou tão nervosa!» Pensava eu, naquela cama individual, no quarto da Academia Militar onde iria prestar provas.


-Não passei amor, foi tudo uma estupidez. Nunca me devia ter deslocado para isto! Que vim cá eu fazer afinal?!
Disse-lhe eu ao telefone, enquanto ele não acreditava no que acabava de ouvir. Mas com palavras de conforto, lá tentava animar-me.
Lá fui para casa, comprar bilhetes de volta. Ligo-lhe de novo.
-Amor, não sei como dizer-te isto mas…tudo o que te disse, acerca das provas… bem…é que eu… PASSEI!!! Estava a tentar fazer-te uma surpresa mas não dá mais!


Hoje, a frequentar o segundo ano de curso, não me podia sentir mais realizada! Escrevo isto, enquanto sinto tudo o que aconteceu e vejo a boa decisão que tomei. Fácil?
Não!
Das decisões mais difíceis que alguma vez tomei. Foram muitas as noites em branco a tentar imaginar este meu mundo atual. Se seria capaz ou não. E os amigos, esses que me completam! Nunca me deixaram, foram o meu grande suporte e apesar do medo de os perder, foi o coração que eu segui!
Não sei o que o futuro me reserva, mas hoje pretendo lutar por ser um dos exemplos deste país a lutar por uma sociedade melhor e mais segura!
Frequento o curso de GNR-Armas na Academia Militar e sim, sou uma mulher muito feliz!