Parto não medicado: porque escolhi viver esta experiência

Quando dizemos que o parto é nosso, muitas pessoas não compreendem a profundidade destas palavras. Mas eu aprendi, da forma mais dura, que quando nos tiram esse protagonismo, ficamos com marcas que podem durar anos.

Há 6 anos, vivi um parto que não me pertenceu.
Começou com uma ruptura artificial da bolsa sem o meu consentimento e eu, ingénua, só muito tempo depois percebi que não tinha sido “acidental”. Fui obrigada a ficar deitada o tempo inteiro, sem liberdade para me movimentar. O meu plano de parto foi ignorado.

Pedi epidural em modo de analgesia, mas recebi a dose de anestesia total. Perdi sensibilidade, perdi movimento, perdi o controlo. A última dose foi administrada minutos antes do meu bebé nascer e o efeito arrastou-se muito para além do período expulsivo. Não participei. Fiz força às cegas, sem saber se havia contração ou não. O bebé nasceu com ventosa, fizeram-me episiotomia sem qualquer explicação, e o desfecho foi um ano inteiro de fisioterapia pélvica.

Foi duro.

E foi a partir daí que eu decidi: o próximo parto teria de ser diferente.

O despertar

Com o tempo, percebi algo essencial:
- O parto não pertence ao profissional de saúde.
- O parto é da mulher, da família.
- E só em caso de risco é que precisamos que intervenham e, mesmo aí, precisamos de informação e respeito.

Queria que o meu parto fosse um momento meu. Queria decidir. Queria apoio, mas não imposição. Queria ser protagonista da minha própria história.

Parece simples, certo? Mas não foi.

A busca pelo profissional certo

O obstetra Dr. Diogo Bruno, que nos acompanhou na gravidez é conhecido pelos partos naturais e sempre nos disse: “As decisões são vossas.”
Mas a realidade das maternidades públicas assustou-nos. O caos, a falta de garantias.

Fomos para o setor privado à procura de respeito. Ouvimos frases como:
 “A posição de parir não é negociável.”
 “Se não for indução, não faço.”
 “Não sou a pessoa indicada.”

Doía-me. Eu só queria a oportunidade de tentar parir por mim, com apoio, confiança e sem imposição. Era pedir assim tanto?

Acabámos por ser encaminhados por uma amiga para uma obstetra que nos acompanhou até ao fim. Mas confesso: a sua visão também estava limitada à indução. Ainda assim, segui em frente.

O grande dia

Na madrugada de 28 de julho, pelas 2h, comecei a sentir contrações espontâneas. Dois dias antes da indução marcada. Reconheci de imediato a diferença para as de Braxton-Hicks e fiquei feliz.
Era o meu corpo, a minha bebé, o meu momento.

Durante o dia, fiquei em casa: bola de pilates, técnicas de respiração, compressão, aromaterapia, água quente (a minha melhor aliada). Estava preparada.

Às 19h30, com contrações ritmadas (a famosa regra do 5-1-1), decidimos ir para o hospital. A obstetra? Disse apenas: “Não vou poder ir.”
Senti-me desamparada, mas não desisti.

No hospital

Chegámos às 20h30. A enfermeira confirmou: 5 cm de dilatação, bebé cefálica, bolsa prestes a romper. E, para meu alívio, o plano de parto foi respeitado.

Nada de imposições. Perguntei se podia evitar o soro, e a resposta foi: “Claro.” Deram-me líquidos para beber e deixaram-me continuar a gerir o processo com o meu companheiro.

Às 23h30, pensei em desistir. A dor parecia insuportável, pedi epidural. Mas o meu companheiro estava preparado: sabia que aquele era o momento de transição, quando o corpo da mulher se prepara para o período expulsivo. E incentivou-me: “Estamos quase lá.”

A enfermeira confirmou: 8 cm. E nesse instante, ao levantar-me, a bolsa rompeu. Fui para o chuveiro - água quente :)

O clímax

Senti uma pressão avassaladora, o meu corpo contraiu sozinho. Não havia volta a dar: a minha bebé ia nascer.

Arrastei-me até à cama com medo de que ela viesse ali mesmo, no chuveiro. O quarto encheu-se de profissionais, mas todos com respeito, sempre a informar-me de cada toque, cada gesto.

O obstetra, o Dr. Dusan Djokovic, limitou-se a apoiar os tecidos para não rasgar. E foi só isso. O resto foi meu.

Em menos de 20 minutos, a minha filha nasceu.
Foi instintivo.
Foi selvagem.
Foi bonito.
Foi meu.

A verdade que aprendi

O parto não medicado não é sobre provar resistência à dor.
É sobre respeito, consciência e liberdade.
É sobre confiar no corpo, no processo e em quem nos apoia.

E, acima de tudo, é sobre uma mulher reencontrar o protagonismo que nunca deveria ter perdido.

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