A depressão pós-parto: a minha visão abrangente

Além de ser uma leitura extremamente redutora, é também bastante perigosa!...
Porquê? Porque passamos a desviar o olhar do que realmente está em causa: condições sociais, políticas e relacionais em que a maternidade/parentalidade, hoje em dia, acontecem em Portugal.
A depressão pós-parto não surge do nada nem da noite para o dia. Surge em contextos de exaustão, cansaço, isolamento e sistemas que exigem uma adaptação rápida e transformação de vida profunda sem backup, sem contenção adequada.
A maternidade faz com que o corpo fique vulnerável e nem sequer temos opção. No pós-parto o nosso corpo sofre uma plasticidade biológica e psicológica extrema. Não preciso comprovar, uma rápida pesquisa e vejam as alterações hormonais profundas, a reorganização neurológica necessária, a privação de sono, mudanças identitárias que levam anos a serem aceites (e não devem ser julgadas), reconfiguração de vínculos e uma dependência total de um novo ser humano pequenino e que necessita tanto deste Ser Humano em total transformação.
Vamos então ver o que diz a neurociência e a psicologia perinatal? Pois é! De forma clara e explícita, vemos que este período exige regulação externa, não só força interna (acham que a Dinamarca cria redes de apoio entre mães em período pós-parto, por acaso?).
Nenhum organismo consegue, de forma saudável, atravessar esta transição com uma magnitude deste tamanho sozinho e a custo zero. O custo é elevado, é em forma de sofrimento e sobrecarga prolongada.
Agora digam-me, acham que o isolamento materno é acidental?
Durante gerações, a parentalidade foi sustentada por redes de familiares alargados, comunidades de apoio, presença contínua de outros adultos cuidadores. A modernidade desmontou estas estruturas e não criou qualquer alternativa equivalente. Estamos condenada/os!
Sabem o que a sociedade espera de mim, hoje em dia, enquanto Mulher e Mãe?
Espera que eu recupere fisicamente em semanas enquanto regulo emocionalmente o meu bebé, me mantenho produtiva e ativa, retome as minhas funções profissionais em pouquíssimos meses e faça isto tudo, basicamente sozinha, porque o pai tem que voltar ao trabalho cerca de um mês depois do bebé nascer... Isto é normal? Sou só eu a ver que isto é altamente patogénico?
Reparem, a evidência científica mostra que a ausência de apoio social consistente nos pós-parto está associada a maior incidência de depressão pós-parto, aumento da ansiedade, dificuldades na vinculação e desgaste emocional e físico prolongados. Estamos a falar de redes de apoio como fatores de proteção e não de "sorte" ou "luxo".
Também preciso de parar um bocadinho para dar voz à desconstrução desta narrativa altamente conveniente de que a mãe resiliente, autónoma e capaz de "dar conta de tudo sozinha" deve ser celebrada.
Vamos por partes:
Primeiro esta narrativa é altamente perigosa e normaliza um sofrimento evitável.
Depois, quando normalizamos e dizemos que "é normal estares assim" e não oferecemos apoio concreto nem suporte, estamos a pedir-lhe que se adapte a um contexto que não se deve tentar adaptar!!! Sabem o que fazemos, com isto? Colocamos as mães em modo sobrevivência e sobreviver não é propriamente o mesmo que estar bem pois não??
Agora vamos tocar na ferida: licenças parentais curtas refletem o valor que a sociedade atribui à natalidade, à parentalidade e ao cuidado das suas crianças que serão os seus adolescentes e culminarão nos seus adultos.
Licenças curtas, fragmentadas e mal remuneradas ajudam bastante. Ajudam bastante a aumentar o stress materno, a dificultar a recuperação física, a comprometer a saúde mental, a fragilizar a vinculação precoce e a forçar regressos prematuros e indesejados ao trabalho em estados de completa exaustão!
Se acham que pedir mais tempo para parentar é o mesmo que pedir mais dias de férias, desenganem-se. É saúde pública e o Estado devia responsabilizar-se. O que não se vê é que ao ignorarmos isto hoje estamos a transferir os custos para o amanhã, para o sistema, para a sociedade, país e mundo.
Sabem quem é que vai estar a governar, a dirigir, a regular, a pensar e a trabalhar, daqui a 20, 30, 40 anos? Os bebés, as crianças, os adolescentes que hoje são ignorados, deixados a serem criados nas creches, sem tempo para estar com a família e com os pais.
Agora falemos no tabu "autocuidado". Parece-me que este tipo de rotina, cuidar de si, nem deve ser falada no contexto pós.parto. Como se a mãe que cuida de si não está apenas a reconhecer limites humanos básicos de descanso, alimentação, escuta, acompanhamento e tempo para si mesma. Mas secalhar até lhe chamam de egoísmo (conveniente, mais uma vez).
Olhemos para os dados, por favor. A depressão pós-parto é um sinal óbvio de coletividade que está a falhar, A razão para que tantas mulheres adoeçam no mesmo período de vida está no sistema, não em cada uma delas.
Porquê?
Porque este quadro é resultado de políticas insuficiente, redes de apoio inexistentes, idealizações e normalizações perigosas, silêncio social (se as outras conseguem eu também tenho que conseguir) e desvalorização do autocuidado e do cuidado ao próximo.
É preciso agir. Aliás, é URGENTE agir. Mas não só agir com a irmã ou a prima. Temos que agir no plano cultural, no plano político e comunitário.
Precisamos URGENTEMENTE de:
- licenças parentais mais longas e protegidas;
- reconhecimento do pós-parto como o período crítico que é;
- acesso facilitado a acompanhamento psicológico;
- validação social da necessidade de descanso;
- reconstrução intencional (e para ontem) de redes de apoio.
Sem parecer caridade ou um favor mas sim como a responsabilidade coletiva que é.
Temos que cuidar de quem cuida. Sabem porquê? Porque as gerações de amanhã só existem se hoje tivermos bebés. E só temos bebés e crianças saudáveis se tivermos um espaço seguro para isso.
A solução NÃO É AGUENTAR MAIS.
Quero só ressalvar que este texto não substitui acompanhamento médico ou psicológico. A depressão pós-parto é uma condição séria e tratável.
Contudo, após ter sido diagnosticada com depressão pós-parto, convido-vos a repensar comigo como estamos, enquanto sociedade, a sustentar ou a falhar a parentalidade?!
Nenhuma mãe deveria adoecer porque quer cuidar e gerar o futuro da sociedade.
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